terça-feira, 20 de outubro de 2015

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Acrílico

Acrílico


Augusto Fontam (Ponte Vedra, Galiza)
É um autor  esperimental no cine,é na pintura e a poesia...............solitario e furtivo.
Tem um  BLOG  em situaçom transitoria na sua construçom:
augustofontam.com
(Públicado em Elipse núm. 3)

sábado, 10 de outubro de 2015

Aprendizagem da perda

Aprendizagem da perda


É a minha própria casa, mas creio
que vim fazer uma visita a alguém.

Maria Gabriela Llansol

A juvenil primavera das chuvas já não tomba aqui,
a tua morte estranhamente nos nivela nas lâminas
sob o exímio hálito que amadurece a ferida do xisto
com que construímos ocultos falcões no coração,
aprendi à força a tua ausência e a das chuvas
e no entanto pertences-me cada vez mais sob o azul,
o afinco do meu afecto tem uma assombrada presença
dos teus olhos pois é o autêntico afecto do agora,
se o sangue esfria a doce retoma do corpo enxuto
a tua boca de primavera subsistirá infinita como pedra,
pois se te amo me habitas e se me ocupas te guardo,
e porque morta vivendo aprendo apreendendo-te,
a tua presença e a das chuvas é tão verdadeira
que a beleza do amor estará sempre onde te preservo.


João Rasteiro (Ameal-Coimbra, 1965. Portugal)Poeta e ensaísta. É Licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade de Coimbra. Possui poemas publicados em várias revistas e antologias em Portugal, Brasil, Moçambique, Itália, Espanha, Finlândia, República Checa, Colômbia, México e Chile. Obteve vários prémios, nomeadamente a «Segnalazione di Merito» do «Concurso Internacional Publio Virgilio Marone» e o «Prémio Literário Manuel António Pina». Em 2012 foi um dos 20 finalistas (poesia) do «Prémio Portugal Telecom de Literatura». Publicou os livros: A Respiração das Vértebras (2001), No Centro do Arco (2003), Os Cílios Maternos (2005), O Búzio de Istambul (2008), Pedro e Inês ou As madrugadas esculpidas (2009), Diacrítico (2010), A Divina Pestilência (2011), Tríptico da Súplica (Brasil, 2011), Elegias (2011), e Pequena Antologia da Encenação – 2001/2013: Poemas em ponto de osso (2014). Em 2009, organizou para a revista Arquitrave da Colômbia, a antologia, intitulada «A Poesia Portuguesa Hoje».
(Públicado em Elipse núm. 3)

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Sem título 7

Sem título 7


Devorei pulsos em chamas.
Amplamente o rosto envolto por coágulos de sangue luzidio
a trespassarem as veias estanques como a enrolar
as cores existentes
por dentro.
Certo é percorrerem
todo esse ar
que engole o corpo celeste mergulhado
na textura do nosso corpo temporal.
Fico com as mãos
cheias de ossos trancados.
Levanto
a cauda de um espelho
e alongo as vísceras astronómicas,
com bastante força química,
a dilatar numa circulação sanguínea
até a leveza
da garganta se alagar
na sombra líquida
das artérias
contra o alto esquecimento das coisas profundas,
contra os tendões severos a racharem a boca desvairada.
Relembro quando adormecia
sobre todas as
coisas vivas ou mortas
por fora.
Submetia os lábios
a girarem a voz louca
ao lume pedestre
e ardia pelo estremecimento terrível
dos nervos cabeça adentro,
donde múltiplas
estrelas demoníacas
a baterem-se em mim longamente
param, a pouco e pouco, a potência que nunca me sorriu
e vago ou inocente deixo de caber
nos sítios superficiais
à minha volta.
Releio todas as cumplicidades translúcidas
a moverem toda a pele num feixe de pérolas
das salgadas mãos,
aos braços a escorrerem aquele alimento
metidos nas águas sentadas
no túmulo dessas estrelas tubulares.
A destreza deste poema extingue-se quando as unhas
tocarem na carne abaixo, rompendo,
com sinceridade,
a desvastação simbólica
da escrita furibunda
ou silêncio furibundo
a pesar com delicada melancolia.
Ouço o rasgão
do corpo a sangrar
com os tecidos dos versos
a palpitarem porque se nomeiam
e se escrevem dentro
da pulsação ininteligível.
Por cima,
devoro os pulsos em chamas.

Filipe Marinheiro (Aveiro, 1982. Portugal)
«Em Dezembro de 2013, publiquei o meu segundo livro, Silêncios, com a Chiado Editora.
Livro que cria náusea e dor no leitor, ao reviver todas as experiências de vida e de morte e o seu questionamento. Silêncios ondula entre o tom alegre e o melancólico. Evoca uma linguagem de pureza e suavidade que abre vórtices para o tangível e o intangível, entre passagens viscerais até atingir percepção absoluta da beleza inimaginável. Dá ar e_vida, sangue e respiração… e essa respiração é dicotómica: tanto é ofegante como também abranda, dando pois uma_vida e um pulsar do coração a objectos e coisas invisíveis e inanimadas.
Ao percorrer essa beleza que é palpável e impalpável, rasa como que num estilhaço, todos os elementos da natureza e todas as suas paisagens. Uma poesia irrequieta, recalcada, vivenciada numa doçura triste que flutua entre o oxigénio e_o_dióxido de carbono do dia e da noite.
Poesia em estado selvagem, rebelde. Cada poema que faço é uma busca incessante do silêncio definitivo, alegoria para o local da paz. Procuro rebentar com toda as canonicidades de alguma da literatura actual.
Para mim, só existe o acto de escrita enquanto escrita em si, como pensamento livre. Tudo o resto é literatura… e o_acto de leitura e interpretação deve ser igualmente livre, cada pessoa deve tirar a sua própria ilação, procurar os_seus próprios silêncios. O mesmo poema poderá ser límpido ou compacto, dependendo dos olhos de quem o lê.
A poesia é um jogo de estados de espírito… aliás, eu não sei o que é a poesia, não sei defini-la. O acto de escrever poesia é simplesmente um jogo de estados de espírito reflectidos num espelho metido para dentro e para fora. A_palavra e a linguagem são meros instrumentos. Dialogando diariamente com ela, espero continuar sem saber o que é a poesia e muito menos o que é ser-se poeta! Se pela força da vida algum dia souber defini-los, estarei louco ou_morto.»
Página de Filipe Marinheiro no site de Chiado Editora:
http://www.chiadoeditora.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1518:marinheiro-luis-filipe&catid=62:m
(Públicado em Elipse núm. 3)

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

No pétreo leito, entre os rais

No pétreo leito, entre os rais

Poema escrito para acompanhar a fotografia
 de Carlos Silva para a publicação digital «munditações»

Porque sou uma mulher coberta de resío
aguardo o sol-pôr espida
Abraçada a um interminável fado
impávida
Coma uma inanimada estatua de sal
projetada cara as vias
dende as janelas brancas de alumínio
Contempla-me! Venho dum naufrágio
Levo gárgulas de pânico na mirada
Acutilo bágoas com os dentes
e empreendo trajetos incertos
Intuo que as memórias
quebram-me coma um vimbio, feble de humidade
Pousam-se-me nos lábios folerpas
e os lobos dos recordos desgarram-me a carne
Sou  uma faquir esmorecida
acima dos caminhos de ferro
Faço-me a dormida
e o zunido do vento rincha-me nos dentes
A chuva desintegra-se em ínfimas partículas
e morre aterecida
no pétreo leito, entre os carris
O  relógio vai cara atrás e o algarismo é um epitáfio
que sucumbe baixo um comboio de mercancias

Cruz Martínez Vilas (Armenteira, 1960. Galiza)
Fundadora de Penúltimo Acto (Acción Poética). Organizadora do ato Círculo Poético Aberto no Café Uf (Vigo). Pertence á Junta Diretiva da Asociación Cultural O Castro de Vigo. Publicou os livros Espelho de mim mesma (Círculo Edições, 2014) e Xerografia em branco e negro (Corpos Editora/Poesia Fã Clube, 2014).
Ganhou, entre outros, o primeiro premio no XXII Certame de Poesía en Lingua Galega Rosalía de Castro, com o poemário Amante tocada pola antropofaxia em 2008, o XXVI Poesía en Lingua Galega Rosalía de Castro, com o poemário Contemplo o proceso inevitábel da despedida em 2012 e o II Certame de Poesía em Língua Galega Manuel María com o poemário O lánguido ocaso dunha dalia.
Blog pessoal: No ollar dun bufo verde. http://noollardunbufoverde.blogspot.com.es/
(Públicado em Elipse núm. 3)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Confesión

Confesión


Eu creo na muller todopoderosa
que padece baixo a razón de tipos
coma Poncio Pilatos
precursora de ceo e terra
Creo na súa forza que procede
de todo o visíbel e invisíbel
Na que pola nosa culpa foi asasinada
e viviu sendo maltratada
Creo na que non cree
e fai camiño
na que a diario loita
porque o seu reino non terá fin
Eu creo neste tempo
máis que nunca, nas raíñas
que non traerán
descendentes non desexados
a este mundo…
por máis que nos doia

Raquel Pazos Garrido (Vigo. Galiza)
Blog pessoal: auga nos labios.
http://raquelpazosgarrido.blogspot.com.es/
(Públicado em Elipse núm. 3)

sábado, 19 de setembro de 2015